Quando se fala de Código Bushido, a imagem que vem à cabeça é quase sempre a mesma: um samurai, uma espada, um momento de decisão em combate. É uma imagem bonita e não é falsa. Mas, para quem pratica artes marciais e leva o código a sério fora do tatami, a virtude mais exigida no dia a dia não tem nada a ver com lutar.
Numa situação crítica com um colega, um cliente, alguém acima de nós na hierarquia: a reação mais fácil seria responder na mesma moeda. Mas será essa a forma certa de o fazer?
O que é, de facto, o Código Bushido
O meu Sensei Filipe Ferreira, no seu blog Sensei Spirit, a fonte que sigo para falar deste tema, define-o assim: "O Bushido significa o Caminho do Guerreiro (...). Este foi durante muitos séculos, o código de conduta dos Samurais, uma casta guerreira engrandecida pelos seus actos heróicos, e pelo seu desprezo pela vida sem honra." O código nasceu da adaptação do Zen Budista, com influências do taoísmo e do budismo chinês à cultura da guerra, com o propósito de cultivar a honra necessária para servir com lealdade. É seguido hoje tanto por quem pratica artes marciais como por quem lidera fora do tatami, e organiza-se em torno de sete virtudes: Gi (integridade), Yu (coragem), Jin (benevolência), Rei (respeito), Makoto (honestidade), Meiyo (honra) e Chu (lealdade).
Estas virtudes são frequentemente apresentadas como uma lista para memorizar. O problema é que uma lista não muda o comportamento de ninguém. O que muda o comportamento é perceber qual destas virtudes é chamada a agir num momento concreto e simples, não num momento heróico.
Para mim, esse momento é quase todos os dias.
A situação que se repete
Não há uma história única aqui, e seria desonesto fingir que há. O que existe é um padrão: cruzo-me regularmente com pessoas que não estão no seu melhor dia, por razões que me são completamente alheias. E, por causa disso, respondem-me mal, são indelicadas ou arrogantes numa troca que, à partida, não tinha motivo para ser tensa.
No contexto empresarial, isto ganha um peso adicional quando a pessoa do outro lado tem um cargo acima do meu. Um choque nessa situação não é apenas desconfortável. Pode ser crítico para a posição que ocupo.
A minha resposta, treinada e repetida ao longo do tempo, é simples de descrever e difícil de sustentar: não entro em confronto. Não tento perceber quem é mais teimoso. Se preciso de algo de alguém e essa pessoa não está a cooperar, ou está visivelmente mal disposta, recuo com respeito e volto a abordá-la noutro momento.
Isto não é subserviência. É reconhecer que aquele momento de atrito não é, na maioria das vezes, sobre mim.
Todos estamos aqui pela primeira vez
A ideia que sustenta esta prática é simples de enunciar: estamos todos nesta vida pela primeira vez. Cada pessoa tem o seu próprio percurso, com pressões e histórias que desconheço por completo. Respeitar esse percurso, mesmo quando se manifesta como indelicadeza dirigida a mim, torna a minha vida mais leve, porque deixo de carregar como ofensa pessoal algo que raramente o é.
O "Rei" do Bushido, o respeito, funciona, na prática, como uma correção manual e consciente à forma como julgamos os outros mais depressa do que a nós próprios. Obriga a assumir, por defeito, que a rudeza que recebo tem uma causa situacional que desconheço, tal como gostaria que assumissem em relação a mim nos meus próprios dias maus.
A coragem mais difícil não é a de lutar
É aqui que entra "Yu", a coragem. É aqui que a maioria das interpretações do Bushido fica curta. Associa-se coragem quase sempre à ação: enfrentar, responder, não recuar. Mas na prática diária, a forma de coragem que mais me exige é o oposto: a coragem de não responder à provocação, de não competir por ter a última palavra, de sair de uma sala sem ter "ganho" a troca.
Não reagir não é fraqueza. Quando genuinamente se está em condições de reagir e se escolhe não o fazer, isso é controlo e o controlo, no Bushido, vale mais do que a reação.
O espelho: quando o mau dia é meu
Esta prática só é honesta se funcionar nos dois sentidos. Os mesmos princípios que me pedem para não levar a peito a indelicadeza alheia pedem-me para reconhecer quando sou eu quem está mal disposto e para não descarregar isso em quem está à minha frente.
Os outros não têm nada a ver com os meus problemas. Há uma frase do meu Sensei Filipe Ferreira sobre Meiyo que resume bem isto: É uma virtude que só se perde por escolha própria. Ninguém me pode tirar a honra ao ser indelicado comigo só eu a posso perder, se decidir responder da mesma forma. Se Meiyo (honra) e Makoto (honestidade) significam alguma coisa no quotidiano, é isto: assumir a responsabilidade pelo meu próprio estado, em vez de o tornar um problema de outra pessoa.
O limite necessário
Esta prática tem um limite claro, e é importante nomeá-lo para não soar a passividade disfarçada de filosofia: Recuar perante o mau dia ocasional de alguém não é o mesmo que tolerar um padrão de desrespeito.
"Gi", a integridade, é a virtude que impõe esse limite. Há uma diferença entre dar espaço a alguém que está a atravessar um momento difícil e aceitar, de forma repetida, um comportamento que atravessa a linha do desrespeito estrutural. A primeira situação pede paciência. A segunda pede uma conversa direta, feita sem hostilidade mas sem ambiguidade. Confundir as duas, usar "está a ter um mau dia" como desculpa permanente para o comportamento de alguém, ou para a minha própria inação, não é Bushido. É evitamento.
O que muda, na prática
Reduzido à sua forma mais simples, o método é este: reconhecer o sinal de indelicadeza sem lhe responder no calor do momento; perguntar-me se aquilo é um padrão ou um dia isolado; e, sendo um dia isolado, retirar-me com respeito e voltar a abordar o assunto mais tarde, sem guardar ressentimento nem transformar isso numa avaliação do carácter da outra pessoa.
Não é uma técnica de negociação. É uma forma de não gastar energia emocional em batalhas que não são, na verdade, minhas.
O que realmente vale a pena levar comigo
A imagem do samurai com a espada é a mais fácil de vender do Bushido. Mas a versão do código que uso praticamente todos os dias não tem espada nenhuma. Há sempre alguém a atravessar um dia difícil: um colega mais impaciente, um cliente mais tenso ao telefone, um superior hierárquico menos disponível do que o costume. E há sempre essa mesma escolha, feita em silêncio, de não transformar isso numa questão pessoal. Talvez seja esta a parte do Bushido que menos se fotografa e mais se vive: a que acontece sem plateia, sem aplausos, e que quase ninguém reconhece como coragem, exceto quem a pratica, todos os dias, com calma.


