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A excelência não tem nada de extraordinário. É exatamente por isso que funciona.

Se olhares de perto para qualquer resultado que pareça extraordinário, não vais encontrar nada de extraordinário lá dentro.

Vais encontrar comer bem. Dormir o suficiente. Treinar. Estudar. Fazer isto outra vez no dia seguinte, e no seguinte a esse, durante mais tempo do que parece razoável.

Isolado, nenhum destes comportamentos tem alguma coisa de especial. Ninguém aplaude uma pessoa por ter dormido oito horas ou por ter comido uma refeição equilibrada. Não há sorte nisto, nem um momento de viragem, nem nada que dependa de "dar certo". Há só a decisão de repetir os mesmos comportamentos comuns até deixarem de ser um esforço e passarem a ser quem somos.

Gostamos de histórias com um momento decisivo. A ideia genial que muda tudo, a oportunidade que apareceu na hora certa, o golpe de sorte que separa quem "conseguiu" de quem não conseguiu. Estas histórias vendem-se bem porque são simples e têm um herói.

O problema é que raramente são verdadeiras e, mesmo quando existe um momento assim, ele só teve efeito porque alguém já se tinha preparado, durante meses ou anos, através de comportamentos que ninguém filmaria.

Isso é desconfortável de aceitar, porque tira a desculpa mais fácil que existe: "não tive sorte." Também é libertador, pelo mesmo motivo: se a excelência dependesse de sorte, não haveria nada a fazer. Como depende de repetição, há sempre alguma coisa a fazer amanhã de manhã.

Comer, dormir, treinar, estudar e outra vez ...

Comer bem uma vez não muda nada. Comer bem trezentas vezes seguidas começa a ser uma pessoa com outra energia, outra cabeça, outro corpo. Dormir bem uma noite não se nota. Dormir bem a maioria das noites, durante anos, é a diferença entre alguém que aguenta a pressão e alguém que rebenta com ela.

O mesmo vale para treinar e para estudar. Um treino não transforma nada. Trezentos treinos, sim. Não pelo que aconteceu num deles em particular, mas pelo que se instalou ao longo de todos eles. É essa a parte que ninguém filma e ninguém publica: o dia comum, sem nada de fotografável, que só interessa porque se repetiu.

Nenhum destes atos, sozinho, é a excelência. A soma, sim.

James Clear, autor de Hábitos Atómicos, resume esta ideia numa frase que uso muitas vezes para me corrigir a mim próprio: "não subimos ao nível dos nossos objetivos, caímos ao nível dos nossos sistemas." Um objetivo é a fotografia do resultado que queres. Um sistema é a sequência de comportamentos comuns que, repetida, produz esse resultado sem precisares de pensar nele todos os dias.

Isto muda a pergunta que costumo fazer a mim mesmo. Em vez de "onde quero chegar", passo a perguntar "o que estou disposto a repetir, mesmo nos dias em que não me apetece". A segunda pergunta é sempre mais honesta e é ela, não o objetivo, que acaba por decidir o resultado.

Mas nem toda a repetição conta.

Isto tem um limite importante, e prefiro nomeá-lo do que deixar o artigo a soar a um convite genérico para "repetir mais": repetir sem intenção não produz excelência, produz apenas hábito.

O psicólogo Anders Ericsson, que estudou o desenvolvimento de competência de elite durante décadas, chamou a isto a diferença entre repetição ingénua e prática deliberada. Treinar sem um objetivo específico, sem procurar e aceitar feedback e sem te colocares ligeiramente acima do que já dominas, faz-te ficar competente e depois estagnar. O corpo e a mente habituam-se e deixam de se esforçar. A prática deliberada exige o oposto: metas concretas, atenção total durante a repetição, e a disponibilidade para pedir, e aceitar feedback, corrigir o que está errado em vez de só cumprir o gesto.

Comer, dormir, treinar e estudar são a base. Mas treinar sem prestar atenção ao que estás a treinar é apenas ocupar tempo. A repetição que constrói excelência é a que é feita com os olhos postos em algo específico, não a que é feita só para poder dizer que foi feita.

O que fica?

Não fiz nada que dependesse de sorte. Não houve nenhum momento em que algo "deu certo" sem mais nem menos. Houve comer, dormir e treinar. Depois estudar, comer, dormir e treinar outra vez. E a excelência começou a formar-se exatamente aí. Não como um destino que se atinge, mas como aquilo que sobra depois de repetir, durante tempo suficiente, comportamentos que isoladamente não têm nada de extraordinário.

Se há um convite neste texto, não é para começares algo grandioso amanhã. É para reparares no que já repetes todos os dias e te perguntares: é isto que quero que se acumule?